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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Amada Mãe Índia - Segunda Parte


O trem parece mudar de bitola, chacoalhando lenta e sistematicamente cada um de seus vagões, movendo e ajeitando os corpos dos passageiros sobre as camas de segunda classe, expondo as luzes das casas que beiram os trilhos e relaxando meu corpo mais profundamente, que vira pro lado e se encaixa perfeitamente na ideia de um eterno viajante que dorme em constante movimento, contente e inteiro num eterno balanço de ideias, aproveitando a pequena brisa que passa pelas janelas enferrujadas de uma locomotiva que lentamente chega na abafada Cochin. A parada é de alguns minutos.

Vendedores de água e omeletes invadem os corredores, mendigos se arrastam entre as camas e espantam as baratas com seus lenços de lapela, crianças pulam por cima dos mendigos em direção a banca de chicletes e refrigerantes na plataforma da estação. Camille continua seus cantos de Taizé, na cama acima da minha.

Camille viveu em Taizé muito antes da comunidade ser fundada no meio da segunda guerra mundial. Séculos antes, ainda na Idade Média, quando poucas pessoas habitavam a região. Passou uma vida inteira meditando e fazendo práticas espirituais próximo a outros eremitas, criando a egrégora energética que possibilitou a formação da comunidade no século vinte.

Ele canta desde que saímos de Amritapuri ao entardecer. Alguns cantos são em latim, outros em árabe. Não deveriam talvez, mas os versos se encaixam perfeitamente entre as sobrancelhas manchadas de cinzas e os vestidos bregas estampados com geometria sagrada, das pessoas ao nosso redor. Faz pouco mais de duas horas que deixamos o ashram e já parecem dias. Mesmo o uso constante da chama violeta, queimando o trem para ambos os lados, por todas as classes, não conseguiu barrar as vibrações dos celulares que trazem para a minha mente a velha percepção do tempo.

O trem parte. Omeletes e garrafas de água pulam das portas dos vagões, alguns mendigos se esquecem de descer e algumas crianças se esquecem de subir. São lembradas pelos gritos zangados dos pais, que cospem os pedaços demasiadamente salgados das omeletes no chão e jogam algumas moedas a mais dentro de suas meias penduradas nos ventiladores de teto do trem, lembrando-se de ainda tê-las para as próximas paradas porém também esquecidos, de crescer. São poucas as pessoas que crescem na Índia, mas as que crescem se tornam muito, muito altas. Deve ser para criar um equilíbrio.

Mantenho a chama violeta acessa madrugada adentro, causando pequenas náuseas aos fumantes insones que balançam suas pernas pelas portas abertas e melhorando sutilmente o gosto dos futuros birianis, ao queimar também os arrozais adjacentes de Tamil Nadu. Camille intercala cantos com meditações, ligando e desligando a trilha sonora sobre uma sonoplastia estrangeira que domina os campos e cidades lemurianas dos meus olhos fechados.

Descemos do trem em Katpadi junto com o sol nascente e subimos de ônibus para Tiruvanamalai antes das nuvens chegarem. Meu coração libera toda a tensão da viagem ao avistar Arunachala. Ah, Arunachala... estamos de volta ao doce lar do espírito!

Montamos nosso acampamento em Athithi, ao lado de 3 sadhus que também visitam a região. Em momentos, mais 2 irmãos chegam de Amritapuri também atendendo ao chamado da sagrada montanha, e então somos 7 sanyasis nos revezando constantemente na ioga, meditação, cantos e mantras, orações e banhos frios de caneca. E também nas esteiras do refeitório, pois Athithi tem sem dúvida a melhor comida de Tiruvanamalai!

Sadhus acordam cedo, geralmente as 3 ou no máximo as 4 da manhã. As horas antes e durante o amanhecer são os momentos mais propícios para se fazer práticas espirituais. E também para explorar Arunachala. Coloco algumas nozes e tangerinas na bolsa, Camille leva a garrafa de água e partimos rumo ao pé da montanha, de dhoti e chinelos, sândalo e rudrakshas. Em silêncio.

Arunachala não sofreu nenhuma modificação geológica em milhares e milhares de anos, fato que foi recentemente comprovado por cientistas ocidentais. A montanha se manteve intacta através das muitas mudanças planetárias, sua vegetação e solo são muito antigos, sua energia é muito forte.

Dar a volta em Arunachala no sentido horário é considerado uma peregrinação das mais sagradas, o cumprimento de uma gloriosa oferenda, cada passo no caminho é abençoado pelos devas e munis, que destroem os pecados e purificam o peregrino, concedendo-lhe grandes méritos e abundante bem-aventurança.

Caminho com alegria e concentração, de lanterna apagada e cabeça erguida, confiante nas escolhas de Camille que nos lidera entre as espinhentas trilhas do sopé do corpo de Shiva. Logo chegamos a uma grande pedra que marca o caminho circular em torno da montanha, encostamos nossas cabeças na pedra, repetimos nossos mantras e pedimos a benção de Deus para os nossos passos, pensamentos e silêncio.

Há uma enorme conglomeração de seres benévolos aqui e a medida em que caminhamos sinto diferentes áureas por detrás das árvores, na beira das águas, e atrás de nós na trilha. Viro para trás a toda hora, tentando reconhecer quem está nos seguindo. Se tem alguém falando comigo. Palavras que desconheço materializam-se em meu campo mental e versos de famosos cantos que costumo cantar de repente adquirem novas acentuações e junções de vogais, emanados agora em uma nova língua que nunca ouvi antes.

Aruná Chalashiva Aruná Chalashiva Aruná Chalashi Varunachalá Aruná Chal Ashiva Aruná Chal Ashiv Aruniá Chal Ashi Varu Nachialá

Sinto toques em meus braços, um profundo êxtase em meus chacras, sou conduzido sem esforços pelo caminho, movido por uma divina sensação de plenitude e conexão, que traz tanta shakti pela minha coluna que espera Camille! - sinalizo com as mãos - preciso parar, estou meio tonto - meus dedos girando em torno de minhas orelhas.

Sento em seiza e coloco as mãos sobre as coxas. Acho difícil acreditar que excesso de shakti cause tonturas ou dores de cabeça, mas fato é que pode causar sim. Aliás, geralmente acho difícil acreditar em excesso de shakti, pois realmente não faz muito sentido antes da transcendência da dualidade.

Camille encosta a lanterna no peito e a aponta para o seu próprio rosto como num filme de terror. Quase quebro meu silêncio com uma risada. Então uma leve onda sobe pela minha nuca e explode dentro de meu crânio. Suavemente. Benignamente. Como um hímen que se rompe trazendo nova beleza e mistério ao corpo. E surge um feixe de luz colorida.

Primeiro penso que é só no meu olho esquerdo. Sempre que acontece algum estranho evento na minha visão penso que é no olho esquerdo. Mas logo fecho-o e verifico que é no direito também. Há um feixe de luz curva e colorida em meus dois olhos. Listras de luz formadas por triângulos, dourados, prateados, verde e amarelo neon. A curva segue os glóbulos dos meus olhos, dominando e acomodando a paisagem conforme o meu foco.

Noto que o céu começa a clarear. Um azul mais ameno tinge o centro dos semi-círculos traçados por linhas de luminescentes triângulos que agora parecem despertar em 3D. Como vou continuar caminhando assim? Meu foco parece um pouco borrado nos limites do feixe cintilante, será que isso é permanente?

Esfrego e pisco os olhos e então percebo algo confortante: este estranho fenômeno não pertence aos meus olhos físicos, pois ele se mantém quando eu fecho os dois! Na verdade, se intensifica. Sinto uma expansão da minha consciência ao mesmo tempo em que as tonalidades das cores triangulares se intensificam e dividem minha mente em três.

Camille, acho que tomei um ácido - sinalizo com as mãos. O que você está tentando dizer? - ele sinaliza de volta.

Não, eu não tomei um ácido. Isso parece mais DMT. Devo estar tendo algum tipo de ativação da minha glândula pineal que está desenhando contornos maias nas formas da natureza. Será que a minha abstenção já de mais de dois anos de flúor finalmente surtiu efeito, e ela está sendo reativada?

Não, provavelmente isso é apenas a montanha. Já caminhei essa trilha no ano passado e senti os efeitos da montanha na minha consciência, já tinha sentido essa mesma tontura antes mas nenhum hímen em meu cérebro havia se rompido.

Arunachala é realmente um dos lugares mais sagrados do mundo, aqui viveram inúmeros sábios que atingiram a consciência divina. O mais conhecido atualmente foi Ramana Maharshi, que após ter se iluminado aos 16 anos de idade, largou a família e o todo o resto do mundo, para passar a maior parte de sua vida aqui. Amma também veio para cá no começo da década de oitenta, e também não queria mais ir embora. Foi apenas após a suplicação de seus primeiros devotos, que ela concordou em voltar para seu estado natal de Kerala e fundar um ashram. Ainda bem.

Camille indica que precisamos continuar caminhando. Tento explicar para ele o que está acontecendo comigo mas é inútil, não sabemos nos comunicar em nenhuma linguagem de sinais e não podemos quebrar o nosso voto de silêncio.

Levanto e sinto a mão que empurra as nuvens por detrás da atual consciência humana. Sinto que apenas ela é real e que as nuvens são tão irreais, tenho a sensação de que estou vendo um filme. Eu costumava gostar muito de filmes mas faz já quase 3 anos que não consigo ir ao cinema - me parece agora uma tremenda perda de tempo!

A cada passo testemunho a projeção do filme mudar a cor do céu, agradeço a macia confortabilidade da minha poltrona, danço a maravilhosa mágica de minha atuação, sorrio um enorme desejo de aprender a arte da criação consciente para meu amigo que está agora atrás de mim. Ele sorri de volta.

Há poucas pessoas na trilha. Um agricultor, um atleta. Andamos com rapidez durante os primeiros raios de sol e logo chegamos a um trecho urbano, onde a cidade de Tiruvanamalai avança mais do que deveria - eu porém gosto dessa mudança de paisagem.

As pessoas estão acordando, ligando suas motos e penteando maria-chiquinhas em meninas que amarram seus pequenos cadarços ou observam os vizinhos com seus espelhos de maquiagem infantis, vizinhos que lavam potes ou desenham bonitas mandalas de giz na entrada de suas casas, para depois comprar algumas guirlandas de flores dos vendedores ambulantes e acender incensos. O ar é fedido e perfumado ao mesmo tempo. Troco 20 rúpias por duas guirlandas de jasmim, para ficar apenas perfumado. É o meu vício a dualidade.

Observo novamente a inigualável doçura indiana neste novo despertar. As mulheres sorriem enquanto penteiam suas filhas, as meninas sorriem enquanto viram os espelhos para que suas mães lhes penteiem, os maridos sem camisa sorriem ao sentarem seus filhos nas lambretas, e os meninos uniformizados sorriem ao descerem das lambretas de seus pais e correrem para nosso lado para pedir canetas, perguntar nossos nomes e sorrir. O ar matinal é doce como uma guirlanda de jasmim em volta do pescoço.

Deixamos a cidade por uma enorme escadaria que sobe até a caverna de Virupaksha, onde Sri Ramana viveu por 17 anos. Entrar nesta caverna é uma experiência única. O sono é um sintoma frequente que ocorre quando nos deparamos com um campo de consciência mais elevado, a mente foge para o inconsciente quando é hermeticamente cercada por ondas de frequências que não consegue ainda processar conscientemente. Há muitas pessoas dormindo sentadas dentro da caverna e eu também luto contra leves desmaios durante minha meditação. As paredes ainda emanam a magnitude da presença do grande mestre.

Meditamos também na caverna de Skandasramam, um pouco mais pra cima da montanha, mas acabo passando mais tempo com os macacos, que me cercam a procura de minhas últimas nozes. Camille aponta a cabeça para o topo da montanha. Já são duas da tarde, a subida demora 3 horas e pode anoitecer antes que a gente consiga descer, porém ele não espera minha opinião e parte para cima com largos passos.

Troco o dhoti por uma leve bermuda estampada com favelas cariocas, que estava no fundo da bolsa e uso o dhoti para proteger todo o corpo contra o intenso sol indiano, pois não há árvores na trilha da subida. São 3 horas íngremes e não temos tempo para descanso. Concentro-me no ritmo de um mantra a cada passo, os chacras das mãos bem abertos para fluir a energia do mantra e purificar a garrafa de água que acabei de encher numa bica qualquer.

Tiruvanamalai fica cada vez mais bonita e silenciosa. Lá embaixo, os grandes portões do templo branco se destacam entre a confusão de concreto. O horizonte se expande revelando a gentileza agrária das pequenas comunidades da região que plantam pimenta e mascam uma estranha vagem que não consegui entender o nome.

Encontramos outros peregrinos no caminho, porém eles estão todos descendo. Há lendas sobre babas enigmáticos que moram em pequenas cavernas da encosta mas nenhum se materializa para nós. Conheci apenas um que vive na montanha, lá embaixo perto do Ramanashram, que não me chamou muito a atenção.

E então chegamos. A um cenário surreal, se não estivéssemos na Índia - a um topo de montanha negro e grudento, repleto de restos de lixo queimado e tomado por milhões de libélulas que flutuam frenéticas em bandos magnetizados, atraídos e repelidos numa constante dança insetológica através das nuvens, que revelam e escondem o planeta conforme a temperamental vontade dos deuses.   

Em algumas datas ao longo do ano os nativos trazem dois mil litros de ghee para cá e tacam fogo, criando uma chama que atinge 30 metros de altura e mantem-se acesa por dias. O resultado é essa pasta negra e grudenta - tipo um asfalto derretido de cheiro bom - que permeia todo o chão e impossibilita os peregrinos de sentarem ao final da longa subida - a menos que eles escorreguem e caiam de bunda. E o lixo é cortesia de quase todos que chegam até aqui.

Já as libélulas encontraram uma boa desculpa no ghee queimado para não se afastar do topo da montanha - fora quando ele está em chamas eu imagino - mas o que as mantém realmente magnetizadas é a divina áurea desse lugar. Libélulas sentem e são atraídas por energias divinas.

Camille e eu deslizamos nossos chappals pela graxa para o outro lado de Arunachala e descemos um pouco até encontrarmos um lugar para sentar. Uma rocha proporciona uma magnífica e segura vista para o lado oeste e estendemos nosso banquete entre nossas pernas: água de bica e tangerinas.

Ao acabar as tangerinas estamos os dois irradiando felicidade. A montanha realmente nos invade e temos que nos segurar para não cair na gargalhada. Paz, amor, plenitude, experimentamos o maravilhoso conteúdo de todas essas setas. Amo as palavras, mas há algo melhor além delas.

Começa a noite e temos que pegar um ônibus antes do amanhecer. Estamos já a 10 dias em Tiruvanamalai, nos deliciando diariamente com a beleza de Shiva Shakti Amma, rindo e brincando com Aum Amma, passando algumas manhãs com Mooji, e tendo ainda a oportunidade de conhecer alguns outros gurus que passam pela cidade durante a alta estação de novembro a fevereiro.

Adoro a viagem no ônibus. Partimos as 4 da manhã num ônibus vazio com todas as janelas abertas e o vento da madrugada consegue tirar todo o calor acumulado da última semana. A pequena estrada também está vazia e o motorista acelera nas curvas e ignora os buracos - melhor que qualquer ônibus carioca.

Chegamos em Bangalore no auge do calor insuportável, observo parques verdes e modernos prédios de empresas de tecnologia espalhados entre a decadência arquitetônica de praxe enquanto nos movemos lentamente em meio ao trânsito caótico e a violenta poluição sonora.

Trocamos o ônibus por um rickshaw que nos leva a Universidade de Bangalore onde Amma está dando abraços. Nos desfazemos de nossas mochilas o mais rápido possível e corremos para o palco. Ao chegarmos, somos imediatamente convocados a enrolar prasad, bem detrás de nossa Guru. Isso é uma grande benção - me diz Camille - estamos fazendo uma boa peregrinação. Eu concordo, fazer parte da fábrica de prasad durante os intensos tours indianos sempre me pareceu uma grande benção. Sentar-me bem atrás da Amma e preparar prasad para milhares de pessoas que recebem seu darshan sempre me levou ao interior de uma nave alada e multi-dimensional, de tons branco e rosa que passeia por um interminável espaço atemporal de nossas consciências unificadas. E ainda no palco, encontramos Shivawn.

Shivawn vem de uma bonita linhagem de bruxas que detiveram valiosos conhecimentos durante a expansão e contração da ignorância humana dos últimos séculos. Seu conhecimento acumulado a colocou ainda na adolescência em contato com os estranhos eventos que acontecem anualmente no norte da Califórnia, denunciados aqui pelo radialista americano Alex Jones.

Logo após ter sido recrutada para trabalhar no infame bosque, Shivawn tomou consciência do que estava acontecendo ali e se uniu a um grupo de guerreiros da luz que se reúnem todo ano para combater e transmutar as energias geradas durante os rituais, oferendo amor e luz para aqueles que os conduzem.

Percebo a beleza da criação de Deus, o equilíbrio entre as forças opostas que formam a terceira dimensão. O grupo dominado pelas forças involutivas que se constitui de muitos líderes mundiais que ali se reúnem todo ano nem imaginam que seus empregados, contratados como garçons, manobristas e faxineiros, tem conhecimento de seus objetivos sinistros e trabalham juntos com as forças de luz para neutralizar as energias formadas em suas cerimônias secretas. O mal desenvolve sua insolência sustentada pela ignorância e o bem desenvolve sua compaixão sustentada pelo conhecimento. A primeira vista pode parecer que o bem está servindo o mal, mas com um olhar mais atento vemos que é o mal que serve o bem.

Shivawn decide se juntar ao nosso acampamento num quarto de hotel e também a nossa peregrinação. Fico feliz com sua decisão, pois sempre achei que dois é bom... mas três é melhor. Passamos os próximos 3 dias em Bangalore correndo do programa ao quarto de hotel e de volta ao programa, para ficar o maior tempo possível perto de nossa Guru. As multidões dos programas indianos são realmente impressionantes, as vezes Amma chega a abraçar 50 mil pessoas em um só dia, num ritmo e disposição cuja dimensão só pode ser absorvida ao sentar-se ao seu lado durante algumas horas, vendo e sentindo o poder de seu darshan.

Descobrir as experiências e conhecimentos de Shivawn sobre o encontro anual no norte da Califórnia me faz compreender melhor algumas experiências que já vivi.

FLASHBACK -- INT . LONDRES - 16 ANOS ATRÁS

O vinho é bom, mas não consigo beber muito. Os padres e as freiras já estão todos bêbados. Aprecio minha fascinação enquanto passeio o olhar pela cinematográfica cena a minha volta: quadros e cortinas sacras escondem paredes de pedra que sustentam singelos vitrais e formam aconchegantes aposentos onde moram padres e freiras que sentam-se a volta de uma grande mesa de madeira maciça discutindo sexo e política depois do almoço.  

Estou fascinado por ter encontrado aqui gente como eu, que desconfia dos livros de escola e sabe que o governo está mentindo, que acredita numa verdade relativa e não se ofende com específicos conjuntos de letras, que já buscou o sentido das coisas nos lugares mais improváveis para ter certeza de que realmente não está lá e que não tem medo de errar ao tentar. Já discutimos novelas e drogas, geografia e rock'n'roll, religião e paladares, e agora sou o único que não está bêbado dentro desta igreja.

Nos últimos dias tenho vindo almoçar aqui diariamente a convite de um dos padres. Da primeira vez vim puramente por estar sem dinheiro, mas agora descobri o real motivo pelo qual encontrei Ulysses subitamente no elevador de uma estação de metro, depois de termos passado uma tarde inteira discutindo filosofia em Oxford sem trocar contatos, a duas semanas atrás. Sim, o fluxo me fez reencontrar do nada alguém que conheci completamente por acaso numa outra cidade, dentro de um elevador público com capacidade para 8 pessoas, numa cidade de 8 milhoes de habitantes! Provavelmente para perceber, que mesmo numa enorme instituição religiosa dominada pelas forças involutivas existem pessoas boas que estão tentando entender quem são, que ficam confusas e mudam de opinião a respeito das coisas, que não conseguem sustentar suas máscaras o tempo todo e acabam sendo elas mesmas. Agora compreendo que a corrupta e macabra elite que gerencia essa instituição há séculos nunca foi um empecilho para que devotos sinceros se conectassem com Deus e atingissem a Sua consciência, tornando-se verdadeiros santos.

Ulysses foi meu guru durante 3 anos, desde a ensolarada tarde de verão em que nos conhecemos em Oxford até um ameno dia de outono quando ele me apresentou as áreas privativas da sede de sua instituição, localizada no centro da capital italiana. Durante 3 anos nos correspondemos intensamente, eu aguardava suas cartas impacientemente e respondia-lhe sempre rapidamente com o melhor de minhas novas conclusões a respeito das coisas. Realmente fiquei fascinado com aquela figura paternal que quebrou todos os preconceitos que eu tinha em relação as grandes religiões, e me mostrou que o mal e o bem eram mais complexos e estavam mais próximos um do outro do que eu imaginava.

Nunca vi Ulysses de batina, sempre cheguei depois da missa para o almoço, quando ele já estava vestindo sua habitual calça jeans e camiseta branca. No último dia em que nos vimos no centro da capital italiana ele também vestiu-se informalmente para me receber. Ele repetia em suas cartas que se preocupava comigo e eu me irritava com isso, não queria ler preocupações nas cartas que tanto aguardava, mas todos os mistérios descobertos por alguém que dedicava a sua vida a Deus. No entanto suas cartas eram longas e continham ambos. Foram essenciais durante o final da minha adolescência, mas em nosso último encontro havia algo nítido no ar: eu não era mais adolescente e nunca teríamos mais contato algum. Não combinamos de nunca mais nos escrever, aconteceu naturalmente.

Hoje porém ainda não sei o quanto de nossos pensamentos vamos trocar nos próximos anos. Ainda há uma parte de mim que guardo só para mim e o que aconteceu no final da tarde eu guardei só para mim, nunca compartilhei com ele. Na verdade só vim a entender e conseguir falar sobre o que aconteceu de fato depois de anos, quando não tínhamos mais contato. Porém, talvez Ulysses nunca deva saber o que acontece por detrás das enormes paredes dessas grandes instituições religiosas, que foram ao longo da história dominadas pelas forças involutivas, e mantém a maioria de seus congregados oblívios a sua infiltração. Ou foi ele quem nunca me contou isso.

Não consigo acabar meu copo de vinho e Ulysses nota que não estou pra conversa. Sou o único que não ri em volta da mesa.

Você já foi a Catedral de São Paulo? - ele me pergunta.

Não, depois de um mês em Londres eu ainda não havia ido, e nem me lembrava dela. Mas não estranhei sua sugestão, pois aqui mesmo nesta igreja havia uma democrática divisão de cerimônias - as da tarde eram protestantes. Só na Inglaterra... pensei da primeira vez em que ele me contou isso.

Hoje no final da tarde haverá um grande ritual lá, é um ótimo dia para conhecê-la.

Agradeço novamente o almoço a todos os presentes e ando até a estação de metro mais próxima apreciando as casas vitorianas, mas decido não entrar. Eu já sentia um amor paternal vindo dele mas ao mesmo tempo já havia essa intrigante distância própria do legítimo aprendizado. Ele não quis vir comigo, mandou-me ir sozinho.

A tarde está bonita e como não estou com pressa decido atravessar o Holland Park, posso pegar o metro do outro lado do parque e assim talvez não seja preciso fazer baldeação. Já fiquei no albergue que tem no meio do parque e tenho boas lembranças daqui. Há muitas flores e crianças arrancando-as. Famílias felizes sentadas em toalhas de piquenique.

Chego na Kensington High Street e ando pelo lado direito da calçada até a estação de High Street Kensington. Entro no tubo e aguardo a linha amarela. O primeiro trem é da District Line, então eu pego o próximo, um westbound trem da Circle Line, apesar deu estar indo pro leste. Ainda não entendo isso direito...

O trem está relativamente vazio. Um negão estiloso que estava sentado lá no canto do vagão de repente se aproxima e me pergunta onde fica a Boots mais próxima. Respondo que sua pergunta é relativa, como estamos nos movendo é uma dessas perguntas cuja resposta muda com o passar do tempo. Aconselho ele a repetir a pergunta novamente um pouco antes de descer do trem. Mas apesar de parecer morar num squat em Brixton, ele não tem certeza de onde vai descer. É, a Circle Line é meio confusa mesmo, porém pra evitar que esse cara fique me seguindo na rua, recomendo a ele descer duas estações depois da minha, que é uma estação muito supimpa, a Boots fica a direita. Dou um até logo e desço em Temple.

Saio do tubo e entro na City pela Fleet Street, contemplando a cidade histórica. Ando e ando e chego na esquina da Fleet com a New Bridge. Aguardo o sinal vermelho para atravessar a rua. O sinal abre e eu ando e ando e atravesso a rua e entro na praça e chego no começo da escadaria da catedral e olho para cima, para a porta de entrada.

E vejo algo estranho.

Vejo uma velhinha entrar na catedral. Pego ela rapidamente de lado e depois de costas, mas o suficiente para me lembrar dela: ela estava aguardando o semáforo de pedestres abrir ao meu lado, a 4 quarteirões atrás, na esquina da Fleet com a New Bridge. Opa, peraí!

Peraí... essa velhinha aparenta ter entre 70 e 80 anos e eu estou aqui no auge da minha adolescência, todo mundo que anda comigo na rua reclama que eu ando rápido demais! Ainda mais quando estou andando sozinho, eu ando muito rápido mesmo. Como é que essa velhinha andou mais rápido do que eu?

Começo a subir as escadas e minha mente já pula pro pensamento seguinte. Dou mais alguns passos antes de entrar na catedral, já no terceiro pensamento. No quarto, atravesso a batente da grande porta e dou o primeiro passo dentro da catedral. E olho para a minha frente.

A minha frente, a cerca de 10 metros adiante, está a velhinha que andou mais rápido do que eu, ainda de costas. Ela sente que eu entrei na catedral. Ela se vira lentamente em minha direção e então percebo que há algo muito peculiar a respeito de seu rosto. Tento entender o que, mas não tenho tempo.

Ela levanta e comprime seu punho direito e com toda sua energia e força corre na minha direção para me dar um soco na cara.

Comecei a praticar Aikido justamente naquele ano, em março. Vivia deslumbrado com a mestria de Morihei Ueshiba, assistia a todos seus vídeos e passava as tardes no tatame calculando em quantos anos eu conseguiria ganhar a faixa preta. Comecei a praticar no Brasil e agora eu procurava um professor aqui.

Acho que exigi muito do meu professor no Brasil. Ele era sem dúvida um ótimo mestre de Aikido, mas eu já tinha dentro de mim este desejo de encontrar um mestre que me mostrasse todos os segredos do universo. Eu projetava esse desejo nele e em pouco tempo comecei a criar uma frustração, que se tornava cada vez mais nítida.

Penso que já trouxe comigo os elementos desta abençoada relação entre mestre e discípulo de alguma encarnação anterior e reconhecia a falta deles durante minhas tardes naquele tatame. No entanto mantive minha dedicação e em poucos meses já havia aprendido algo desta maravilhosa arte marcial que ressurgiu no século vinte.

Algo que me protege dessa velha doida, correndo pra cima de mim pra me dar um soco na cara. Nos 3 segundos que tenho para acionar meus instintos meu corpo decide não utilizar o fluxo de energia que vem para me atacar contra a atacante, mas apenas absorver o impacto de uma forma segura. Eu ainda não tinha tomado a decisão de bater na velha doida.

Mas o impacto não acontece. Quando abro os olhos, ela está bem na minha frente, o punho comprimido a poucos centímetros do meu rosto. Há ódio em seu olhar e então meu coração dispara ainda mais e tenho a maior descarga de adrenalina da minha vida - a medida em que meus olhos percebem os detalhes de seu rosto eu entendo que ela não é humana.

Aquele ser mantém o punho cerrado na frente do meu nariz por um momento, enquanto eu sinto a baixíssima vibração de seu olhar. As características de sua face são demoníacas e algo fica claro entre nós: ele foi impedido de me tocar naquele instante.

Muito frustrado, ele se abaixa, vira seu corpo e começa a andar para dentro da catedral e eu percebo que enquanto estava bem na minha frente, estava na ponta dos pés.

Agora tudo toma uma outra dimensão. Durante toda minha infância e adolescência passei por experiencias que não conseguia entender e não podia compartilhar com as outras pessoas, e agora estou começando a viver mais uma. Em todas as vezes anteriores deixei a experiência se desfazer e sumir, sem correr e pular em cima dela e agarrar ela pelos cabelos, jogar no chão e exigir uma explicação dela. Mas agora estou cem por cento determinado a correr e pular em cima desse ser, agarrar ele pelos cabelos, jogar no chão e exigir uma explicação dele.

Estou na entrada de um dos maiores pontos turísticos de uma das cidades com mais turistas no mundo, mas ninguém parece ter percebido o que acabou de acontecer. É domingo, 4 da tarde, o sol brilha forte e os turistas entram a minha volta deslumbrados com as recém descobertas proporções da catedral e a grandiosa missa que se inicia neste exato momento.

Vou imediatamente atrás do ser e combino comigo mesmo, muito seriamente, que a partir de agora não vou piscar. Não vou perder um segundo desta experiência, vou absorver tudo com o maior grau de consciência possível em todos os meus sentidos.

A catedral é realmente enorme e o ser caminha para dentro dela pela ala central desviando-se dos turistas. Nem ele nem eu conseguimos correr sem atropelar alguém, então ambos caminhamos o mais rápido possível, ele como que atrasado para o ritual e eu, para alcançá-lo e derrubá-lo no chão.

Após algumas palavras iniciais em latim se inicia uma grandiosa cantoria. Há centenas e centenas de padres e freiras e bispos e cardeais que cantam juntos, todos com vestimentas brancas e vermelhas, enfileirados de pé em ambos os lados do recinto, desde o altar até o meio da catedral. Bem no meio, uma corda separa os religiosos dos turistas e um homem alto, branco, vestido todo de negro pede aos turistas que ali chegam para sentarem-se.

Tento perceber o que está acontecendo no altar mas combinei comigo mesmo de não tirar o olho do ser até agarrá-lo. De não piscar. O ser então se aproxima do alto homem de negro que controla a entrada para a ala interior da igreja através da corda e para meu completo espanto eles começam a conversar como se já se conhecessem!

Isso me imobiliza. Paro a poucos metros deles, ainda há alguns turistas de pé entre nós mas consigo vê-los muito bem. Eles conversam com intensidade, apesar de estar muito próximo não consigo ouvir o que dizem, a cantoria é ensurdecedora.

Suas expressões, gestos e movimentos dos lábios se intensificam e agora parece que estão brigando. O ser então grita com o homem alto e este finalmente concorda com ele: a corda é levantada e ele pode entrar. E então tenho a segunda maior descarga de adrenalina da minha vida, minutos depois da primeira: ao passar por debaixo da corda que separa o interior da catedral o ser desaparece diante de meus olhos abertos.

O homem alto abaixa a corda e retoma seu pedido aos turistas, para sentarem-se. Eu quero ir até ali e falar com ele mas não consigo, meu corpo precisa correr. Corro entre os bancos chutando aqueles que estão no meu caminho e corro por uma das alas laterais. Bato nas pessoas, bato nas colunas, alguém grita comigo. Preciso sair daqui o mais rápido possível.  

Me esforço para caminhar e sair da catedral enquanto a segurança é acionada. Seguro o coração e mantenho a passagem de ar pela boca aberta até chegar na porta. Sei que algumas pessoas estão vindo atrás de mim mas elas não vão conseguir correr tanto quanto eu. Corro para a luz do dia.

Não sei por quanto tempo eu corri. Não sei aonde estou. Sinto ainda a realidade quebrada, minha consciência entre dimensões. Vejo uma estação da Piccadilly Line. Gosto da Piccadilly Line, ela pode me levar para casa.

Acordo em Cockfosters. Droga, preciso voltar.

Acordo em Heathrow. Droga, não vou conseguir voltar. Melhor dormir aqui no aeroporto, ninguém vai notar que não vou pegar um avião.

INT . BANGALORE - MADRUGADA

Acordo com o frio do ar condicionado. Camille e Shivawn dormem profundamente. Há uma outra menina dormindo no nosso quarto, ela tem dreads loiros, é finlandesa e mora no ashram desde que cheguei a Amritapuri. Gosto dela.

Após 3 dias em Bangalore temos que repensar nossa peregrinação. Amma viaja todo ano num grande tour pela Índia nos 3 primeiros meses do ano, mas não havíamos planejado acompanhá-la desta vez. De Tiruvanamalai iríamos para Tiruchirapally para ver Swami Premananda, que está injustamente preso, mas que todo ano manifesta seu corpo fora da cadeia na noite de Shivaratri.

De Tiruchirapally talvez fossemos para Madurai, mas com certeza continuaríamos para Pondicherry, para visitar o ashram de Sri Aurobindo e a famosa ecovila de Auroville.

Mas não resistimos a atração de nossa Guru. Um verdadeiro Guru é irresistível, seus devotos são atraídos a ele como limalhas de ferro a um poderoso ímã. Você sabe que encontrou seu Guru quando sente um amor espontâneo e uma atração inexplicável a ele.

Enquanto amanhece medito sobre a peregrinação. Sim deixamos de ver os milagres realizados por Swami Premananda na noite de Shivaratri e eu perdi mais uma vez a oportunidade de conhecer o ashram de Sri Aurobindo, mas meu coração está feliz. Sinto que seguindo nossos corações estamos fazendo a peregrinação certa, que vai nos levar para uma sabedoria que não pode ser alcançada através da mente, que havia planejado o roteiro perfeito.

Nossa próxima parada seria o ashram do famoso guru Satya Sai Baba, porém aqui em Bangalore recebemos a notícia de que Mother Meera estará dando darshan por cinco dias em sua cidade natal de Madanapalle, a poucas horas daqui, a partir de hoje. Mother Meera mora na Alemanha e passa curtos períodos de tempo aqui na India. Na Alemanha as pessoas esperam meses para poder receber seu darshan; aqui é só chegar. Vamos discutir isso no café da manhã.

No café da manhã a finlandesa parte em outros rumos e nós 3 decidimos mesmo ver Mother Meera. E de repente, Martina e Pete sentam-se na nossa mesa.

Martina e Pete são um casal, ela irlandesa e ele americano, que estão fazendo uma viagem romântica através da Índia. Nos conhecemos por estarmos hospedados no mesmo hotel, na primeira noite, quando chegamos todos juntos em rickshaws diferentes e a porta do hotel já estava trancada.

Por termos nos conhecido, eles ficaram sabendo quem é a Amma e vieram abraçar ela, na segunda noite do programa. Ontem a noite não os vimos, e agora de manhã eles sentam-se a nossa mesa e nos dizem que querem abandonar a viagem romântica que haviam planejado para viajar conosco. Para onde estamos indo?

Contamos que acabamos de decidir ir a Madanapalle, a cerca de 4 horas daqui, ver Mother Meera. Seu darshan é as 6 da tarde, então temos que sair logo. Vai demorar no mínimo uma hora para chegar na rodoviária, 4 ou 5 no ônibus, 1 hora talvez até acharmos um hotel e depois o seu ashram. E já são quase dez.

Vamos de táxi - eles nos convidam. Seu convite é imediatamente aceito.

Demoramos 2 horas para achar um táxi grande o suficiente para nós cinco, com a ajuda dos dois rapazes da recepção e do magrelo irmão de um deles, e do porteiro diurno que discutiu o assunto com o bigodudo gerente do restaurante que contatou a simpática cozinheira do norte da Índia que é irmã de uma das faxineiras que está de folga hoje, mas que falou com o dono da loja de punjabis ali da frente e o vendedor de cocos da barraca da esquina e que juntaram duas dúzias e meia de motoristas de rickshaw parados na frente do hotel fechando o trânsito e gritando uns com os outros para decidirem quem vai nos levar em 4 rickshaws - os extras para as malas - numa viagem de mais de 7 horas pela empoeirada estrada e calor insuportável de Karnataka e Andhra Pradesh. E também com a ajuda do filho do dono da farmácia da rua de trás, da tia-avó de um vendedor de capas de celulares que passa ali todas as quartas e de um novo hóspede que acabou de chegar de Chennai com a mãe e cinco primas - duas delas solteiras - e ligou para um tio com quem não falava desde o ano passado que tem um escritório de importação e exportação e conhece o dono de uma frota de táxis que ficam no aeroporto e tem carros grandes para mais de 3 pessoas e conseguiu convencer um dos motoristas a atravessar a cidade no horário de rush para vir nos pegar aqui no hotel e levar até Madanapalle, assim não precisamos fazer uma viagem infernal de rickshaw.

O motorista do tal carro, além de ficar preso no trânsito de Bangalore provavelmente parou no meio do caminho para encher os pneus, trocar o óleo e almoçar, pois eles só colocam gasolina depois que pegam os passageiros e já tem confiança no pagamento. Na Índia as pessoas se iluminam porque há muitas oportunidades de cantar seu mantra e rezar. Deixamos o hotel as 2:15 da tarde.    

É claro que minha mente se irrita com toda essa confusão, já estamos bem atrasados para o darshan, mas sinto que há algo especial na decisão de Pete e Martina. O carro é realmente grande, confortável e tem ar condicionado, eu sento no banco da frente com a Shivawn a minha direita e o motorista ao lado dela. Pete, Martina e Camille no banco de trás.

Saímos de Bangalore e viajamos por uma das paisagens mais bonitas do sul da Índia, há mini montanhas e mini desertos, pedaços de florestas e rios. Finalmente uma estrada sem casas na sua beira. Vamos nos conhecendo melhor e percebo que estou na companhia de cinco pessoas incríveis - o motorista tem um olhar profundo e penetrante e resmunga com alegria.

Viajamos com velocidade e a felicidade do meu coração se expande a cada quilômetro. A paisagem, a conversa, a pacífica expectativa do novo darshan e a maravilhosa satisfação do último constroem uma linda egrégora ambulante em volta do nosso carro, que vibra em luz e me remete aos momentos mais bonitos da minha vida: andando solto por uma praia tailandesa antes da monção, pulando alto os muros de um castelo escocês depois do crepúsculo, desenhando círculos no ar a minha volta com os braços ao definir os pontos cardeais de um novo planeta a ser habitado, inteiro, completo, feliz, presente, em paz.

Amo este carro branco em todos os seus detalhes, do estofado negro dos bancos ao cinzeiro ao vidro do pára-brisa que me protege do vento e a cada ser humano que aqui dentro senta-se comigo nesta misteriosa viagem rumo ao divino desconhecido. Sinto a aura de nossos corpos trocando as cores de nossas almas e sinto o peso do meu corpo pressionando os ombros contra os braços retos que terminam com as mãos abertas no vidro da frente, uma delas em cima da mão da Shivawn, que também se segura como pode enquanto o carro é jogado no acostamento e desligado abruptamente, a porta do motorista aberta aos trancos e o próprio que sai correndo com a boca caída sem nos dar nenhuma explicação.

Olhamo-nos rapidamente e concordamos instantaneamente em silêncio: o carro vai explodir.

Nos atiramos pelas portas e nos afastamos o mais rápido possível do automóvel. Correndo de volta em nossa direção chega o motorista que nos abraça eufórico e grita repetidamente:  Grande avadhuta! Grande avadhuta! Grande avadhuta!

Olho para trás na direção em que ele aponta e vejo um homem corcunda de cabelos brancos e cabeça torta, guirlanda e cachecol em volta do pescoço, sentado em lótus sobre uma bicicleta para crianças, que desliza pelo asfalto se aproximando de nós.

Todos observamos atentamente enquanto ele passa ao nosso lado e segue adiante pela estrada.

Grande avadhuta, grande avadhuta - continua gritando o motorista - entrem logo no carro!

Entramos logo no carro e ele acelera atrás do avadhuta. Isso é uma grande benção, isso é uma grande benção - ele nos repete ainda eufórico em seu inglês quebrado -  vou passá-lo e vamos parar novamente mais adiante!

Já ouvi falar muito desse avadhuta - ele continua - já vi um programa de TV sobre ele há alguns anos atrás, mas nunca em toda minha carreira de motorista eu tive a sorte de encontrá-lo na estrada! Ele nunca pára de viajar, está há muitos anos sempre em constante movimento viajando por toda a Índia e ninguém nunca sabe para onde ele vai - encontrá-lo é uma grande benção!  Vocês são muito sortudos! Isso é muita sorte, isso é uma grande benção!

Observo atentamente o senhor sentado em lótus enquanto passamos a sua direita e paramos novamente mais adiante. Descemos do carro e noto que o avadhuta não pedalou a bicicleta em nenhum momento desde que o vimos pela primeira vez. Olho para os dois lados da estrada. Não estamos numa descida, na verdade a estrada parece estar subindo ligeiramente e a bicicleta dele continua se aproximando de nós com a mesma velocidade sem que ele toque nos pedais!

Shivawn, me dá sua câmera.

Ligo e ajusto o zoom. Espero ele se aproximar um pouco para pegá-lo mais de perto. Estou convencido de estar vendo algo muito peculiar, um senhor corcunda sentado em lótus sobre uma bicicleta que sobe a estrada sem nenhum impulso dos pedais. Mas quando vou bater a foto ele inexplicavelmente abaixa as pernas e pego o primeiro toque de seus pés nos pedais:


Ele passa do nosso lado ainda sem pedalar e sorri para mim. Tem alguma coisa acontecendo aqui. Nosso motorista está ainda maravilhado quando um carro que vinha lá atrás pára do nosso lado e nos informa:  há um grupo de carros que seguiu adiante e estão enrolando prasad em algum chai stop. Eles vão convidar o avadhuta para parar, dar darshan e distribuir prasad para todos.

Vamos receber darshan! - nos avisa nosso motorista.

Subimos no carro e tenho sentimentos confusos dentro de mim. Eu ainda tinha esperanças de ver Mother Meera esta noite, havíamos pedido a ele para dirigir o mais rápido possível, imaginando que poderia haver um satsang com bhajans que demorasse umas duas ou três horas e então talvez chegássemos já no final, mas ainda a tempo do darshan.

Porém nosso motorista não quer discutir o assunto e já tomou a decisão por todos nós - vamos passar o maior tempo possível junto do avadhuta.

Todos os mestres indianos contam estórias de avadhutas em seus livros porém eu ainda não consegui absorver plenamente o significado e a importância de suas ações. Estou vivendo um sentimento que já li antes em livros, os avadhutas realmente desafiam a nossa mente.

Amma encontrou oficialmente 3 avadhutas, em estórias que estão relatadas em seus livros. Um deles tinha uma aparência tão suja e vivia num barraco tão bagunçado que um de seus swamis confessa no livro: se aquilo era a iluminação, então eu tinha decido ali mesmo que não queria mais atingi-la!

Uma das estórias é sobre a famosa avadhuta de Kanya Kumari, Mayi Amma. Ela vivia pelada na praia cercada de muitos cachorros e acredita-se que viveu por mais de 600 anos. Numa visita no começo da década de 80 a cidade, Amma e seu grupo de swamis foram encontrá-la na praia. De todo o grupo de 15 pessoas, havia somente uma que era vegetariana desde o nascimento.

Sem ninguém lhe contar isso, Mayi Amma logo entrou pelada no mar, pegou um peixe com as próprias mãos, voltou a praia e o atirou na frente desse único swami que nunca havia comido peixe ou carne em toda sua vida, ordenando-lhe:

Coma!

Chocado, o swami olhou para o peixe semi morto na areia debaixo de seus pés e depois para sua guru, na esperança de que ela lhe dissesse para não obedecer a essa ordem insana. Porém Amma não contestou o mandado da avadhuta.

Devido a sua demora em recolher o peixe, um cachorro acabou atacando e comendo a maior parte do animal, deixando apenas alguns restos de carne e escamas afogados em sua baba.

Coma!  - insistia Mayi Amma.

Após ter comido o que pode com extrema relutância e se recuperado do choque, o swami perguntou a Amma qual havia sido o significado daquela experiência.

Por ser o único vegetariano desde o nascimento em nosso grupo - respondeu Amma - ela sentiu que havia dentro de você um sutil sentimento de ser melhor que os outros, e isso precisava ser corrigido.

Em seu bárbaro e formidável livro Play of Consciousness, Swami Muktananda também relata o encontro com avadhutas:

"Eu fui ver um outro grande santo que eu conhecia, chamado Zipruanna. Ele era um grande Siddha. Ele costumava ficar nu e passava seu tempo perambulando as vielas da aldeia de Nasirabad. Ele era reverenciado por todos como um grande ser e chamado por "Anna", por todos os velhos e jovens. Ele costumava morar em lugares onde não havia pessoas, em casas degradadas e cabanas afastadas dos moradores da vila. Ele havia atingido um estado muito elevado de ioga. Ele era previdente, o que significa que ele sabia dos acontecimentos passados ​​e futuros. Seu corpo tinha sido queimado tão puro pelo fogo da ioga que nenhuma sujeira podia tocá-lo. Ele elevou seu corpo a um estado tão alto que eu ficava maravilhado com ele; o Ser interior dos iogues é livre de manchas e o corpo de Zipruanna tinha essa pureza imaculada. A primeira vez que fui visitá-lo, ele estava defecando em um canto; quando me aproximei, ele começou a esfregar suas próprias fezes por todo o seu corpo. Sentei-me bem perto dele e descobri que ele emitia uma fragrância doce - ele não cheirava mal de jeito nenhum. A próxima vez em que fui vê-lo, ele estava sentado em uma pilha de lixo. Mesmo assim, a sujeira não o tocava. Eu não tive coragem de chegar perto, então esperei a uma certa distância. Depois de algum tempo, ele desceu da pilha de lixo. Lavei os pés dele. Uma fragrância como a ashtagandha (uma erva aromática) era exalada de seu corpo. Zipruanna tinha um grande amor por mim. Mesmo agora eu ainda reflito sobre as realizações dessa grande alma. Uma vez perguntei a ele: 'Anna, por que você está sentado nessa sujeira?' Ele respondeu: 'Muktananda, a sujeira que está dentro é muito pior do que isso. Pense a respeito. O corpo do homem é apenas um saco de merda e mijo. Não é verdade?' Eu permaneci em silêncio. Zipruanna era um grande avadhuta, a jóia da coroa entre os santos."

Porém os avadhutas não estão confinados a Índia. É que a sábia e majestosa tradição espiritual indiana aprendeu a reconhecê-los e respeitá-los, porém um olhar mais atento é capaz de achá-los até mesmo no ocidente - pessoas que atingiram a Consciência Divina mas nunca chegaram a atuar como grandes mestres. Um maravilhoso exemplo é a Peace Pilgrim.


Peace andou os Estados Unidos por 28 anos sem parar. Ela comia apenas quando lhe era oferecida comida e dormia apenas quando lhe era oferecido abrigo. Seus únicos pertences eram a roupa e sapatos que vestia. Um lindo documentário sobre Peace pode ser visto aqui.

Além de nos presentear com uma enorme lição de fé, é muito bonito ver como Peace transmitia os mesmos ensinamentos dos grandes mestres, que ela provavelmente recebeu diretamente de Deus durante sua longa peregrinação.

Dentro do carro, passamos novamente  a direita do avadhuta e aceleramos atrás das pessoas que nos informaram sobre a provável parada dele em um chai stop mais adiante. Já tendo planejado dois darshans para hoje, eu realmente não imaginava que estamos prestes a ser majestosamente presenteados com um terceiro.  

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