Chove torrencialmente.
Fortes rajadas vermelhas cobrem os céus e batem violentamente contra as janelas do avião causando ferozes vívidos redemoinhos de pétalas que se expandem cheios e contraem-se ardentes ao despencarem admiravelmente sobre todo o Canal da Mancha enquanto intermináveis toneladas de rosas transbordam ainda de cima das nuvens derramadas com amor pelas próprias e graciosas mãos da Mãe Divina que sorri tenramente se divertindo ao borrar todo o seu azul amarelo celeste matinal com os diversos tons escarlates da suave macia textura de suas pétalas e abençoar sua inusitada entusiástica esquadrilha da fumaça que desliza efetivamente por entre a tempestade desenhando antigos místicos precisos yantras sagrados pelos quatro cantos dos céus para a serena contínua contemplação e elevação espiritual de franceses ingleses e todos aqueles com olhos para enxergar suas amáveis bençãos.
Contemplo pela janela o incomensurável inebriante banho divino da atmosfera terrestre e os magníficos jatos púrpuros lançados pelas turbinas do nosso avião que estraçalham as rosas a nossa frente em magnânimos devaneios metálicos causando um mínimo de turbulência e uma colossal cachoeira de extasiantes encantos acolhedores que despenca em tremenda ressonância atrás de nós a medida que entramos na França. Que espetáculo! Que glória! Um profundo AUM transcedental reverbera infindável de nossas turbinas causando uma sublime e virótica sensação de entrega cura e paz que intoxica a todos os passageiros levando-os a se debruçarem sobre os assentos próximos as janelas absortos inteiramente na deliciosa contemplação por detrás dos vidros da inefável vigorosa formação dos belos deslumbrantes yantras devocionais. Que esplendor!

Atravesso a Europa admirando a chuva e cantando meu mantra num doce e imprecindível louvor melódico criado pela resplandecente manifestação da Mãe Divina em incessantes ondas de amor, anjos e pétalas, que acompanham nosso vôo e alcançam até a entrada sobre o Oriente Médio, manchando levemente o amarelo deserto de vermelho.
Ainda sinto e bebo do êxtase divino enquanto o piloto realiza suas manobras de pouso após termos atravessado o Mar da Arábia e peço novamente a benção de meus mestres neste novo toque do sagrado solo indiano, ao chegar do ocidente pela segunda vez.
Porém agora não permaneço em Mumbai, que já anseia e aguarda o carisma de algum outro novo mestre de vedanta, que consiga também consagrar o charme de seus bairros e de sua população. Faço apenas uma rápida conexão chegando em breve ao quente e ensolarado estado comunista de Kerala. Subo num grande e confortável taxi que me leva em mais uma hora para a estação de trem de Ernakulam e somente então, quando saio da plasticidade e da desinfecção dos ambientes ar-condicionados, é que finalmente chego na Índia.
Ah, a Índia...
Entro na estação e dirijo-me a uma caótica fila de cidadãos desesperados que abanam suas vestimentas, mascam e cospem suas emoções contra as paredes sujas, rabiscadas na enrolada e divertida lingua local. Em segundos sou encochado para dentro da fila masculina e começo a ser indagado de onde venho. O senhor que demanda minha resposta é velho, bigodudo e suado, carrega os vestígios de seu último almoço em sua camisa aberta e desbotada.
Moças e idosas se espremem na fila ao lado, agitadas e ansiosas para chegar logo ao guichê, sempre atentas e cheias de opinião sobre a permanente confusão adiante. Esqueço-me de encochar também o senhor a minha frente e devido a minha distração estrangeira logo um outro cidadão toma o meu lugar na fila, deixando-me um homem para trás. Ele ainda se vira para mim e sorri sua cara de pau descarada. Aqui uma fila é definida pelo espaço físico e não pelas pessoas, como estamos acostumados no ocidente. Se houver qualquer espaço vazio entre você e a pessoa a sua frente, certamente alguém logo o ocupará.
Aguardo por muito tempo, observando coloridas senhoras gordas de classe média e pseudo-executivos pseudo-engomados furarem a fila a todo minuto. A lei local regula que você pode furar a fila, se comprar o bilhete mais caro. Mas nunca há ninguém para averiguar quem furou e quem comprou qual bilhete. Todos ganham anonimato na permanente confusão perante os guichês.
Dois orgulhosos soldados carregando enormes fuzis marcham para dentro do salão. Um deles mantém um olhar duro que escaneia todo o ambiente minuciosamente, impondo uma sensação de ordem e seriedade que chama a atenção de todos. Mas só para que seu parceiro chegue aos guiches sem ser percebido! Eles também estão furando a fila. Ou senão, agindo segundo algum estranho protocolo das forças armadas...
Sinto minhas calças sendo puxadas e percebo um pedinte aos meus pés. Seu corpo não o permite ficar em pé. Vendo-me presenteá-lo com moedas, duas crianças em seus uniformes escolares xadrez também correm em minha direção, mas elas querem canetas. Da onde surgiu esse hábito das crianças indianas, de sempre nos pedir canetas?
Sou atingido pelo olhar ardente de um sadhu de longo turbante e cajado. Sai fogo de seus olhos. Seu ascetiscismo transborda de seus póros cobertos de cinzas, de suas vestimentas laranjas e encardidas. Uma mistura de sagrado e profano difícil de ser desvendada. Abro um sorriso para quebrar meu dúbio e cansado julgamento de sua presença. Sorrio também minha falta de canetas para as crianças, minha paciência recém-chegada para os homens a minha frente, minha curiosa estrangeirice para as mulheres da fila ao lado, minha esperança de um mundo sem fuzís para o soldado ainda sem bilhete. Todos me sorriem de volta. Ninguém resiste a estampada inocência ocidental por estas terras. E continuamos atirando nossos sorrisos uns nos outros até que, incapazes de suprimir nossa tola insistência infantil, derretemos todos no salão da estação, num coletivo reconhecimento da imprestável doçura humana.
Ah, a Índia...
Como é possivel descrever a sensação de se estar aqui? Como seria possível descrever a doçura desses olhares, o sabor de seus thalis ou o aroma de seus darshans?
Para descrever a Índia corretamente, meu blog deveria ter um fundo todo laranja com letras verde brilhantes, e intensas imagens de poderosos avatares e animais desconhecidos, piscando alternadamente em roxo e amarelo fosforescentes. As palavras deveriam estar em diferentes tamanhos e se sobrepor umas as outras, formando frases de difícil leitura e sentido vago. Algumas palavras só apareceriam na luz negra.
Os parágrafos deveriam se contradizer, apresentado idéias claramente incompatíveis, porém cada um deles proclamaria, com suprema autoridade, estar relatando a verdade absoluta! Os artigos deveriam estar fora de ordem em relação ao índice, e deveriam ter múltiplos títulos – três ou quatro cada – apesar de nenhum deles ter qualquer relação com o conteúdo de seus textos.
O índice deveria apresentar artigos que ainda não foram escritos, ou encaminhá-lo imediatamente para algum website de receitas de curry de jaca, que travaria seu computador tão seriamente – e por tantas horas, que a única solução para conter o desespero seria preparar o tal do curry, para conferir se a receita é boa mesmo. Porém ao desligar o fogão, você perceberia que seu computador voltaria misteriosamente a funcionar, mostrando o artigo desejado. Esse mistério nunca seria esclarecido. E o curry ficaria ótimo.
O computador todo deveria exalar um aroma de sândalo, cânfora, plástico queimado e esterco de vaca. Deveria sair fumaça das caixas de som, enquanto também ecoariam uma profunda e milenar reza em sânscrito, misturada com buzinas de caminhões e gritos de macacos. Com intervalos para propaganda política. E gritos não identificados. Uma cinza de sabor agradável e propriedades medicinais deveria se materializar entre as teclas. E as vezes, surgiria a ponta de um colar de rudrakshas na saída USB, que ao ser puxada causaria espasmos de algorítmos por toda a tela – e também na sua coluna.
Na página do meu perfil deveria constar múltiplos doutorados de universidades especiosas, e cargos honorários em grandes instituições filantrópicas que atuam com imbatível veemência em regiões de grande carência humanitária e guerra civil – regiões que só poderiam ser localizadas em mapas da época de Alexandre, o Grande. Haveria um botão implorando por doações financeiras, que não funcionaria.
Alguns artigos estariam escritos de cabeça para baixo. Ao virar a tela para tentar lê-los, você descobriria que seu computador começaria a sintonizar os místicos ensinamentos de algum antigo iogue que ainda estão ruminando pelo éter, assim como corretas previsões do tempo local. Ao praticar esses ensinamentos com determinação e fé, evitando os dias de chuva e umidade excessivas, o iogue logo iria se materializar ao seu lado e sussurrar em seu ouvido algum poderoso mantra em sânscrito, fazendo você experimentar o seu primeiro vislumbre da iluminação.
A experiência toda deveria ser extremamente irritante, mas possuir um enorme encanto que fizesse você voltar para ela de novo e de novo.
Finalmente, estas palavras deveriam criar a ilusão de que você entende a respeito do que está lendo. Apenas para que desligasse o computador satisfeito, e ao se dirigir a cozinha, descobrir que não consegue mais achá-la. Que sua identidade foi quebrada tão profundamente, que até mesmo esta memória básica se dissolveu. E sua única opção é continuar andando sem ela, redescobrindo os cômodos da casa a partir de um olhar completamente novo. É nesse novo andar que estão suas chances de transformação e evolução interior – a contínua e verdadeira benção desse subcontinente para toda a humanidade.
A Índia inevitavelmente te leva em direção ao desconhecido, reciclando-o contínuamente, ao dilacerar o conhecimento que acreditávamos ter.
Foi justamente Alexandre o Grande que no ano 374 Kali (326 antes de Cristo), alcançou o norte do país com o seu poderoso exército. Na Grécia antiga já se falava muito sobre a sabedoria dos ascéticos nús do oriente. E o interesse de Alexandre não estava somente nas terras, mas também na conquista desta sabedoria. Ele planejava persuadir um dos iogues a acompanhá-lo de volta a Pérsia, num dos primeiros relatos de tentativa de exportação de um guru indiano.
Ao ser levado até o local onde se reuniam, Alexandre encontrou-os sentados nús sob o sol, em pedras tão quentes que queimavam os pés de seus soldados. Ao apresentar-se através de seu tradutor como um grande imperador de berço divino, disposto a presenteá-los generosamente em troca de sua sabedoria, com as dádivas que só um imperador pode oferecer, um dos ascéticos logo lhe respondeu:
‘Se você, meu caro, é o filho de Deus, então eu também o sou. Eu não quero nada de você, pois o que tenho já me basta. Você não possui nada que eu possa desejar, e não tenho receio de estar excluso de suas bençãos. Eu noto inclusive, que os homens que você lidera não ganham nenhum benefício de suas marchas através de tantas terras e mares, e que estas marchas não terão um fim. A Índia, com os frutos de sua terra nas variadas estações, é o suficiente para a minha vida; e quando eu morrer, vou apenas me livrar desta morada imprópria.’
Alexandre não se ofendeu com a resposta do ascético, já conhecia e admirava a atitude dos mestres. Uma vez na Grécia, ao oferecer humildemente seus serviços ao filósofo Diógenes que se banhava debaixo do sol matinal, este apenas lhe requisitou: ‘Por favor saia da frente do meu sol!’
O imperador questionou-lhes então sobre os objetivos e benefícios de suas práticas ascéticas, obtendo a explicação de um outro iogue:
‘Rei Alexandre, todo homem só conquista de verdade as terras que estão debaixo de seus próprios pés. Você é apenas um ser humano como o resto de nós, a diferença é que você está sempre agitado, em ações que não beneficiam a ninguém, marchando através de terras tão distantes da sua, tornando-se um pesado fardo para si mesmo e para os outros. Oh Deus! Você em breve estará morto, e então terá conquistado somente a terra necessária para cobrir o seu próprio corpo.’
Quando o exército grego se revoltou, recusando-se a marchar adiante, Alexandre finalmente convenceu um dos iogues a acompanhá-lo de volta a Pérsia. Seu nome era Kalyana.
Mas logo após sua chegada, Kalyana se desculpou por não conseguir se adaptar ao modo de vida local e pediu para que uma pira funerária fosse construída e decorada com flores. Quando ficou pronta, caminhou para ela sendo escoltado por uma verdadeira procissão: homens em cavalos, elefantes e soldados armados.
Subiu na pira, sentou-se em posição de lótus e pediu para que fosse acesa, não apresentando nenhum sinal de desconforto enquanto seu corpo era queimado vivo pelas chamas, diante de todo o incrédulo e silencioso exército grego. Suas últimas palavras a Alexandre foram ‘Nos vemos na Babilônia’. No ano seguinte, foi justamente lá onde o imperador faleceu.
A Índia de hoje é tão fantástica e desconcertante quanto no tempo de Alexandre. E é depois de uma fantástica e desconcertante viagem de trem que eu chego a Amritapuri, para passar um longo período aos pés de lótus de Mata Amritanandamayi Devi, a Amma.
Se é quase impossível descrever aqui a experiência física de se estar na Índia, é então totalmente impossível descrever a experiência espiritual, de se conviver com um mestre que alcançou a consciência de União.
Chegar a esta percepção é o objetivo da aventura humana, e o íntimo convívio com um mestre é o mais bonito e profundo estágio dessa aventura.
A presença de um guru é uma dádiva única, absolutamente necessária para nos guiar em direção a esta meta. Apesar do vento soprar por todo o deserto, é apenas debaixo das palmeiras de um oásis que conseguimos sentir o seu frescor. Da mesma maneira, o ar está em toda parte num dia quente de verão, mas existe uma sensação muito especial quando nos colocamos na frente de um ventilador. Essa é a sensação de se estar na presença de um mestre, sob sua orientação.
Quando estamos tentando chegar em um lugar que ainda não conhecemos, precisamos de orientação para aprender como chegar lá. Tentar alcançar um lugar desconhecido sem ninguém para nos mostrar o caminho é como pescar tirando toda a água do oceano. Até para aprendermos as ciências do mundo, um professor é necessário. Como poderíamos então aprender sozinhos a ciência espiritual, a mais sutíl de todas elas?
Nestes tempos de transição planetária, muitas pessoas afirmam que um guru externo não é mais necessário, que seremos guiados pelo nosso próprio guru interno, ou que nós mesmos somos o nosso guru. Mas isso é o mesmo que dizer que uma semente de maçã e uma macieira carregada de suculentas maçãs são iguais. Enquanto a macieira pode fornecer sombra, abrigo e saciar a fome de muitas pessoas, a semente tem ainda que passar por uma série de estágios para que possa se tornar uma árvore e também dar frutos, recebendo o devido cuidado durante esse processo de desenvolvimento, sem o qual corre-se o risco até de ser destruída por animais ou condições climáticas.
Há uma diferença notável entre os aprendizes espirituais que estão sob a orientação de um mestre e aqueles que tentam trilhar o caminho sozinhos.
O conceito de que vamos atingir uma nova era nunca antes vivida pela humanidade, onde inéditas regras espirituais entrariam agora em vigor, também tem sua base no obsoleto paradigma de tempo representado pela reta. Porém o tempo é circular, e apesar de estarmos prestes a dar um enorme passo para um nível de consciência mais elevado, estamos ainda apenas repetindo padrões de existência que certamente já ocorreram antes.
Amma confirma que o tempo é circular, explicando que não só o ser humano sofre mudanças durante os diferentes estágios do ciclo, mas toda a natureza também muda. Durante a Kali Yuga nada cresce em abundância. Não importa o quanto se trabalhe na lavoura, as colheitas serão sempre insuficientes e de má qualidade. A última Kali Yuga durou de 700 AC a 1700 DC, e nossa história confirma que foi um período de grande escassez e fome.
Na atual Dwapara Yuga pode-se obter colheitas fartas, mas é necessário muito trabalho e cuidado nas plantações, é preciso plantar, fertilizar, irrigar, remover o mato e as ervas daninhas, proteger a lavoura contra pragas e doenças, para então finalmente colher. Na Treta Yuga é necessário apenas a metade desse trabalho, e na Satya Yuga, o homem precisa apenas jogar a semente na terra e voltar para a colheita, que será sempre boa e abundante.
A estatura do homem também muda durante as Yugas, acompanhando o progresso e declínio de sua consciência. Mais uma vez nossa história confirma isso, durante a última Kali Yuga o ser humano atingiu sua menor estatura, que pode ser facilmente observada em castelos e armaduras da Idade Média; desde então estamos crescendo novamente. Lembro-me da primeira vez em que visitei museus e vilas medievais na Europa, fiquei impressionado com o tamanho das portas e vestimentas que pareciam feitas para crianças.
O mais interessante é que se estudarmos a Grécia e o Egito antigos, observaremos uma estatura semelhante a atual. Esse fator explica também os vestígios de uma antiga civilização de gigantes que está sendo repetidamente descoberta por arqueólogos e historiadores: trata-se dos vestígios da própria humanidade durante a última Satya Yuga, a Era Dourada, quando atingimos nossa maior estatura.
Em seu recente livro Approaching Chaos, a historiadora inglesa Lucy Wyatt revela muitas provas de como o Egito Antigo apresentou um gradual declínio de sua civilização durante os muitos séculos de sua existência. Os textos e artefatos mais sofisticados são os mais antigos. Uma ótima entrevista com Lucy está disponível no website do CMN:
Lucy Wyatt on Approaching Chaos
O arqueólogo Graham Hancock também mostra com seu trabalho que as pirâmides maias e a sabedoria de seu calendário são bem mais antigos do que se calculou, datam da mesma época do Egito. Quando a América presenciou a infortuna chegada dos europeus a 500 anos atrás, eram povos também primitivos que habitavam essas regiões, e realizavam sacrifícios humanos sobre pirâmides que não construíram, mas que já estavam lá há muitos séculos. Uma excelente entrevista feita por David Wilcock pode ser acompanhada aqui:
Setting History Free: Graham Hancock & David Wilcock
A consciência e a civilização humana – e também toda a natureza – estavam em declínio até o ano 1200 Kali (500 depois de Cristo). Esta é uma importante chave na compreensão da atual transição planetária.
Os grandes mestres frequentemente usam estórias, metáforas e parábolas para passarem seus ensinamentos, enfatizando assim conceitos para os quais as palavras só conseguem apontar. Vivendo em Amritapuri aos pés de Amma, um dos eventos mais bonitos são os satsangs a beira do mar. Amma se senta na praia e todo o ashram senta-se a sua volta, formando um grande e bonito círculo branco sobre a areia, para ouvir suas palavras e cantar músicas devocionais enquanto o sol se põe no mar da Arábia.
Esta é a estória que eu mais gosto:
‘Durante uma conferência sobre religião e espiritualidade, formava-se um consenso entre os palestrantes sobre a necessidade e importancia das práticas espirituais. Porém quando o último palestrante discursou, ele calou a todos os outros. Em seu discurso, ele poderosamente sintetizou: “Todos nós somos Brahman, parte da mesma consciência universal que permeia tudo o que há, não é verdade? Assim sendo, obviamente já somos aquilo que buscamos atingir e não há nenhuma necessidade de se fazer práticas espirituais!”
Ninguém conseguiu rebater sua fundamentada conclusão e logo após seu discurso o jantar de encerramento foi anunciado. Havia muita comida deliciosa sendo servida para todos, e ele sentou-se na mesa muito orgulhoso de si mesmo. Porém ao ser servido, o garçon não pôs em seu prato nenhuma das delícias locais, mas apenas três pedaços de papel onde se liam as palavras ‘Arroz’, ‘Vegetais’ e ‘Salada’.
Ele imediatamente se indignou: “O que você pensa que está fazendo, você quer me insultar?”
Mas o garçon explicou com calma: “De maneira alguma, senhor. É que eu estava presente no seu discurso esta noite, antes do jantar. Ouvi você declarar que você é Brahman, parte da consciência universal que permeia tudo o que há. E que apenas esse pensamento já lhe é suficiente, não há nenhuma necessidade de se fazer práticas espirituais. Então eu logicamente concluí que você concordaria, que também lhe é suficiente apenas pensar na comida para satisfazer sua fome, obviamente não há nenhuma necessidade de comer! ” ’
Essa pequena estória exemplifica muito bem a diferença entre o conhecimento e a experiência. Esse tem sido um de meus maiores aprendizados aqui na Índia, a diferença entre ajnâna, jnâna e vijnâna. Ignorância, conhecimento e experiência.
Ajnâna é nunca ter ouvido falar sobre Porto Alegre. Jnâna é ver um filme ou ler um livro a respeito da cidade. E vijnâna é andar pelas suas ruas, sentir os seus cheiros e enxergar suas cores.
Assim como o jnâna destrói o ajnâna, o vijnâna também destrói o jnâna. E é o vijnâna, a razão de nossos corpos e o nosso propósito aqui.
Existe uma transição tão bonita acontecendo neste planeta... e há cada vez mais informações disponíveis sobre ela, em livros, documentários e websites. Mas toda essa informação não levará ninguém ao vijnâna dessa transição.
Para atingir o vijnâna de Porto Alegre é preciso fazer a escolha de viajar até lá. É preciso escolher sair de casa e ir até a rodoviária comprar a passagem de ônibus, em algum momento do dia. É preciso escolher deixar de curtir a praia em Florianópolis naquele final de semana, para se estar em Porto Alegre. Se você não fizer essa escolha, você nunca a conhecerá de fato. Mas isso não significa que ela não existe.
Da mesma maneira, é através de suas escolhas que você conseguirá atingir o vijnâna desta transição. Se essas escolhas não forem feitas, você nunca a conhecerá de fato. Mas isso não significa que ela não está acontecendo.
Essa escolha envolve fé. Que garantia você tem de que, ao subir no ônibus em Florianópolis, você realmente chegará em Porto Alegre? Existe alguma garantia divina que assegura plenamente que o ônibus não vai sofrer nenhum acidente, que seu coração não vai parar de bater no meio do caminho? Qual é a prova que você tem, de que você realmente vai chegar? Existe uma boa dose de fé na nossa vida diária. Nós a usamos nas mais variadas atividades e conquistas mundanas. Você acredita que Porto Alegre está lá, apesar de nunca tê-la visto antes, e você acredita que vai chegar a salvo. É por isso que sobe no ônibus, e que tem calma no momento de subir.
Use esta mesma fé, com a mesma calma, para escolher um novo paradigma para a humanidade. Porque o atual está destruindo o planeta em que vivemos e deixando as pessoas extremamente doentes.
O último palestrante da conferência diz a verdade, nós somos sim parte de uma mesma consciência universal que permeia tudo o que há. De fato, o mundo é perfeito exatamente como é, cada grão de areia e cada gota de água está no lugar certo. Mas enquanto não atingimos o vijnâna destas palavras, enquanto elas forem apenas jnâna – palavras, defendê-las para justificar nossa falta de esforço e atitude só nos tornará hipócritas e preguiçosos, atrasando nosso progresso espiritual. Até atingirmos seu vijnâna, essas palavras não são verdade.
Os diferentes estágios de nossa percepção causam a nossa verdade. E a verdadeira destruição acontecendo hoje no planeta não está sendo feita por terremotos ou tsunamis, mas pelo passo sendo dado em direção ao próximo estágio, que está destruindo uma verdade global – um conceito coletivo de realidade, construído pelo mero jnâna adquirido e estabelecido sem o seu devido vijnâna.

Um importante aspecto para a assimilação desse imenso escopo de informações vindo a tona atualmente é um dos ingredientes de um dos melhores sistemas para a evolução espiritual humana, a yoga. Este ingrediente é a devoção.
A devoção tem um sabor único, experimentá-lo abre e nutre nossos corações. Ela traz alegria, conforto, beleza e paz a um caminho que pode se tornar árido com conhecimento demasiado.
Amma recomenda um equilibrio entre os dois, ensinando que o conhecimento sem devoção é muito seco, e a devoção sem conhecimento é muito superficial. Que a devoção é um dos mais bonitos caminhos para o conhecimento. E um dos fins do conhecimento é a devoção. Devoção a Deus, nosso criador. Amar a Deus, por pura devoção.
A devoção também nos desperta de uma ilusão na qual é muito fácil mergulhar com o tremendo teor de tantas novas informações, a de que estamos vivendo uma insana e descontrolada experiência, a de que ninguém está no comando da situação.
Deus está no comando.
Isso é importante, eu vou repetir:
Deus está no comando.
Nenhum de nós nasceu para proteger a floresta amazônica, cuidar dos animais em extinção, instalar um governo justo ou nem mesmo salvar todo o planeta Terra. O propósito de nosso nascimento é buscar e conhecer nosso Criador. Esse é o nosso dever. Proteger a floresta amazônica, cuidar dos animais em extinção, instalar um governo justo e salvar o planeta é nosso dharma. Dharma é aquilo que não somos obrigados a fazer, mas fazemos porque é o certo. Porque é o caminho. Acontece naturalmente, quando resolvemos cumprir nosso dever primordial.
E é após muitas semanas vivendo com dharma e devoção, empurrando e arrastando lentamente minhas verdades para seus respectivos vijnânas, ao beber da presença de uma linda e sábia santa que nos abençoa com a sua luz, que eu parto rumo a uma nova aventura, rumo a uma viagem que será uma das mais intensas e bonitas da minha vida: uma sagrada e surpreendente peregrinação espiritual.
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Para um maior vislumbre da Índia, recomendo dois recentes documentários produzidos pela BBC:
BBC Ganges
BBC Story of India
O documentário Ganges é simplesmente deslumbrante. O Story of India ainda baseia sua pesquisa no antigo paradigma de tempo reto, e consequentemente está cheio de informações históricas equivocadas. Mas ainda assim eu o recomendo, por apresentar atrás de seu discurso histórico uma Índia genuina e contemporanea, exatamente como ela é. E talvez ainda demore um pouco até a BBC produzir documentários no paradigma de tempo circular...
Para um maior vislumbre da espiritualidade indiana, sugiro estes dois livros:
Autobiografia de um Iogue
Living with the Himalayan Masters
Mas cuidado, eles podem mudar a sua vida.