A máquina grudada a minha cabeça causa terror as minhas orelhas, que aflitas, recitam comigo o mantra para que escapem ilesas. MAHA MUNI YE Sinto um alívio instantâneo quando a máquina chega a minha nuca, mas dura pouco. Ela logo sobe de volta ao topo. SOHA TAYA TA O terrível ranger de suas lâminas faz meu crânio todo tremer, e meu cérebro finalmente compreende minhas orelhas e junta-se ao nosso mantra, mas de repente pulo num grito, apavorado e pronto para fazer o sangue parar de jorrar.
Que não existe. Confiro no espelho minha cabeça seca e segura e testemunho o Phong caindo no canto do banheiro de tanto rir. A máquina só travou. Mas ele estava mesmo aproveitando-se do ritual para torná-lo mais divertido e me causar um certo terror. Continuamos... OM MUNI MUNI MAHA

Fico completamente careca e saio na varanda para a inédita sensação de sol no couro. O ar matinal está ainda frio, dominado pela neve que embranquece a junção do verde com o azul, mas os raios já esquentam. Minhas orelhas agora sorriem livres e soltas, conquistadas pelos surpreendentes prazeres da brisa, ansiando em planar ao lado da solitária águia que descansa em círculos sobre McLeod Ganj.
Estamos a quase um mês em McLeod Ganj e já mudamos de hotel 3 vezes, em busca da varanda perfeita. Achamos. A esquerda a neve sobre os impressionantes picos anuncia a fronteira dos Himalaias, ao centro o vale de Dharamsala é cortado pelo rio de Bagsu, e a direita as bandeiras tibetanas abençoam as casas e moradores da mais famosa vila em exílio da Índia.
Phong chega com meu cabelo recolhido, mas planejo acabar o ritual na cachoeira só amanhã. Hoje, Thupten bate a nossa porta no horário combinado. O cativante monge que tem sido nosso guia aqui desde que chegamos aumenta ainda mais seu constante sorriso ao me ver - eu finalmente entrei pra gangue. Coloco o dorje de volta no altar em meio aos cristais e partimos.
O taxista maneja o volante com precisão, desviando-nos de cada buraco, carro e vaca que surje após as curvas fechadas da rústica e estreita estrada que leva ao fundo do vale. Mais uma vez chacoalhamos nossos corpos com alegria entre os pastos e as plantações de chá rumo ao lugar que tem sido o foco do nosso trabalho aqui: a monástica e tântrica Universidade de Gyuto. Enquanto naturalmente observamos o silêncio num espontâneo respeito que sempre surje antes de nos encontrarmos com o mestre, o mantra lentamente faz seu caminho através de minha voz e domina o interior do taxi:
MUNI YE SOHA TAYA TA OM MUNI

Os monges espalham suas gargantas pelos prédios e jardins, num profundo canto transcedental que revela a simetria e a textura da projeção holográfica que forma a universidade que vemos, idealizada em algum plano menos fortuito. Recebo um cachecol branco, tiro meus cordões vermelhos para fora da camisa e sou conduzido ao teto do templo, onde estou finalmente prestes a fazer minha pergunta a um dos mais respeitados e reverenciados mestres do Tibet, o Karmapa.
O budismo tibetano é dividido em 4 vertentes ou escolas, e o Karmapa é o líder de uma delas, a Kagyu. Apesar do Dalai Lama ter sempre ocupado a posição de líder político do Tibet, para muitos tibetanos o Karmapa é seu líder espiritual.
E foi de fato o Karmapa quem, a 900 anos atrás, iniciou a famosa tradição tibetana de mestres que escolhem reencarnar para que possam dar continuidade ao seu trabalho neste nosso plano físico. Enquanto o Dalai Lama está em sua décima quarta reencarnação, o Karmapa já reencarnou 17 extraordinárias vezes, o que faz dele oficialmente o mestre que mais se submeteu voluntariamente aos criativos processos de morte e nascimento, em função da continuidade de sua intenção em aumentar a consciência da raça humana.
A história dos Karmapas é fascinante. A partir de sua iluminação no ano de 1160, o primeiro Karmapa decide iniciar a tradição de reencarnações, e deixa para seus discípulos uma carta que contém as informações necessárias em forma poética para que possam identificar o menino que será a sua próxima encarnação. Porém, por 6 vezes durante estes 900 anos, o Karmapa identificou-se a si mesmo: suas primeiras palavras a seus respectivos pais aos 3, ou 2, ou por uma vez aos 6 meses de idade, foram: eu sou o Karmapa. Nas outras 11 vezes foi a carta deixada pelo Karmapa anterior, que com anos de antecedência sempre prediz o nome de seu futuro pai e mãe, e o local e ano de seu futuro nascimento, que serviu para a sua nova localização.
A morte do décimo sexto Karmapa foi um tanto polêmica: aos 57 anos de idade, durante uma viagem aos Estados Unidos, ele repentinamente adoeceu e morreu de câncer. Alguns acreditam que ele decidiu aliviar um pouco do karma americano (escolha que muitos mestres fazem, através de doenças e da morte); outros acreditam que ele previu os intensos anos a frente da humanidade a cerca de 2012 e decidiu ter um corpo jovem para tal momento. Fato certo é que seu coração permaneceu quente por dias após a sua morte, e assim como o coração do primeiro Karmapa, este também não se queimou na pira funerária - e hoje permanece numa estupa em seu monastério na Índia.

A carta que indicava sua próxima reencarnação demorou 11 anos para ser achada. Esta carta levou uma expedição em junho de 1992 a um remoto vale no nordeste do Tibet. E enquanto a expedição dirigia-se ao seu encontro, o então atual Karmapa aos seus 6 anos de idade, convenceu sua pobre família nômade a moverem-se com um mês de antecedência para o vale onde costumavam passar o verão - apenas para chegar a tempo de ser encontrado pela expedição que veio alguns dias depois. Seus pais contam que decidiram atender ao estranho pedido de seu filho devido aos diversos sinais que ocorreram durante a gravidez e o nascimento: uma bonita música invadiu o ar, ninguém sabia de onde ela vinha. De dentro da tenda, achava-se que a música vinha de fora. De fora, parecia que vinha de dentro. Até todos os moradores da região perceberem que a música estava em toda parte, ao redor de todo o céu.
Aos 7 anos ele foi reconhecido pelo Dalai Lama e muitos outros mestres tibetanos como o décimo sétimo Karmapa, aos 14, ciente de que estava sendo manipulado pelo governo comunista chinês, planejou e executou sua cinematográfica fuga do Tibet para que pudesse ser educado de acordo com sua posição e tradição, e hoje aos 23, ainda tem 2 anos de estudos na universidade antes que comece a ocupar uma posição de mais destaque no cenário international.
Entro na sala e Karmapa está de pé, no centro. Ao seu lado, apenas um tradutor. Faço minhas reverências, abaixo-me para receber sua benção com o cachecol branco e evidencio o topo de minha cabeça careca, conquistada no ritual em sua homenagem. De pé a sua frente, sinto seu brilho nas juntas do meu corpo. Sensação inédita.
Agradeço a honra de estar em sua presença e menciono que devido a transição que estamos passando por, estamos tomando consciência de forças ocultas que secretamente manipulam eventos em nosso planeta para manter seu controle sobre nós. Pergunto como devemos lidar com este fato.
Karmapa dispensa o tradutor e me pergunta - Que forças ocultas?
Especifico então que estamos, por exemplo, adquirindo consciência de que o 11 de setembro não foi realizado por árabes barbudos, mas por uma sociedade secreta que governou os Estados Unidos e praticamente o mundo todo por décadas, senão séculos.
O tradutor me olha espantado. Karmapa permanece calmo e sereno.

Acima, o décimo sétimo Karmapa.
Ele pausa por um instante e fala em tibetano. O tradutor me traduz:
"Devemos saber que o mundo físico é apenas uma parte do mundo em que vivemos. Uma grande parte deste mundo em que vivemos é espiritual. Uma vez que sabemos disso, é necessário também saber que podemos ter proteção deste mundo espiritual. E temos. Todos aqueles que estão se tornando aptos a perceber o mundo com uma maior consciência, estão sob proteção. É preciso ter fé. E é preciso agir. Uma vez que sabemos destes fatos, é importante agir. A ação é uma parte importante do processo. Se certas pessoas tivessem agido para evitar o 11 de setembro naquela ocasião, ele teria sido evitado. Devemos saber quando agir."
Um mestre que presencia a vida no planeta Terra a quase 900 anos tem uma perspectiva diferente da qual é geralmente vendida por grandes corporações econômicas, políticas e religiosas, principalmente no mundo ocidental. O mal sempre existiu e a forma que ele toma hoje não faz muita diferença em relação a forma que ele tomou a centenas ou milhares de anos atrás, ou mesmo em ciclos anteriores - em Atlântida e Lemúria, ou quando vivíamos em Marte - se a sua perspectiva for imortal.
Todos nós somos imortais.
Perspectiva cria percepção.
Nossa percepção do mundo em que vivemos cria o mundo em que vivemos.
A maneira como olhamos para o mundo em que vivemos cria a maneira como enxergamos o mundo em que vivemos.
Hoje sabemos que vivemos em um mundo que sofre a influência de quem o observa, em um mundo que muda conforme o observador.
Em um mundo projetado pela percepção do observador.
O principal foco do mal nos últimos tempos tem sido estreitar a perspectiva humana. Tem sido nos vender medo e ignorância de todas as formas imagináveis, para que acreditemos que somos seres mortais e desprotegidos, que vivemos num mundo hostil, puramente material e construído ao acaso, para nos fazer abandonar voluntariamente nossas maiores virtudes e nossas melhores possibilidades em troca de segurança, que existe apenas em nossa imaginação.
Imaginação que tem sido constantemente programada para que tenhamos medo de viver.
Ao estreitar nossa perspectiva através dessa extensa programação, deixamos de ver a mágica e a divindade do planeta que habitamos. Somos convencidos sobre infinitas limitações que não existem, mas que ao serem inseridas em nosso olhar, projetam de dentro de nós um mundo limitado.
O 11 de setembro é enorme. Mas torna-se apenas um pequeno detalhe, quando adquirimos a capacidade de enxergar o mal que há atrás da cortina. Por trás da cortina dos grandes canais de televisão, das grandes instituições internacionais, dos grandes governos e dogmas religiosos, existe um mal que está além do que somos capazes de imaginar.
Mas ao chegar lá, mais cedo ou mais tarde vamos entender que a única solução para suportar tamanho mal, é mudar nossa perspectiva. E ao mudar nossa perspectiva, dissolvemos todo o mal que existe. Conseguimos enxergar o mundo em toda sua mágica e divindade.
Porque na realidade, somos nós quem criamos o mal.
A origem do estreitamento de nossa perspectiva sobre o mundo em que vivemos é a nossa própria invenção do mal.
O mal é uma invenção humana.
Porque no mundo criado por Deus para todos nós, a neve cai. Cada floco no lugar certo.